12 de agosto de 2011

Todos estao loucos?

É assustador como o discurso da imprensa hegemônica se espalha e se repete na boca de todos como se fosse a verdade absoluta. Mais assustador ainda é ver como essa suposta verdade absoluta é totalmente sem sentido, parece fruto de mentes preguiçosas que não conseguem ir além de alguma reflexão. O grande problema é que, além desse discurso midiático estar tomando conta de todas as esquinas, se repete até em algumas pessoas de tendências esquerdistas e sempre atentas a essa “falha de comunicação” da nossa mídia. É assustado dessa forma que tento colocar aqui algumas boas reflexões sobre o que tem acontecido da Inglaterra nos últimos dias.


Sejamos claros: será que um monte de gente ia sair destruindo lojas, queimando prédios e expondo suas vidas pelo simples prazer da violência gratuita? Mais inacreditável ainda: são loucos e fazem parte de um surto psicótico que assombra um país inteiro? O que me parece surpreendente é que é mais fácil admitir que são loucos ou baderneiros que tentar buscar uma causa para tal coisa.

Ninguém lembra que em Paris, há alguns anos atrás, aconteceu coisa parecida. Eram também negros, também minorias étnicas que não tem acesso aos bens, cada vez mais escassos, do “estado de bem estar social” europeu. Não defendo a violência por si só: é triste, assustador, machuca. Mas não consigo ficar calado ao ver todo mundo reproduzindo um discurso hipócrita que tenta esconder um grave problema de resseção econômica e esfacelamento das políticas sociais simplesmente chamando de loucos aqueles que se revoltam.

O vídeo e o texto abaixo dão conta de explicar melhor tudo isso. Espero que isso não fique somente entre nós: vamos ter oportunidades de outras leituras que não essa porcaria que circula na televisão.



Rebeldes, mas não ‘ladrões’
Gianni Carta - 12 de agosto de 2011



A onda de violência na Grã-Bretanha foi provocada por um bando de “ladrões” e “doentes”. Numerosos pertencem a gangues de jovens encapuzados, os hoodies. Palavras do primeiro-ministro britânico, David Cameron, em sessão extraordinária no Parlamento, nesta quinta-feira 11. Em miúdos, os ladrões, ou doentes, ou quem sabe ladrões doentes encapuzados, não têm uma agenda. Só querem saquear.

Foram raros os articulistas britânicos a questionar o discurso simplista do primeiro-ministro conservador. Para minha surpresa, até colunistas de diários de esquerda, como o The Independent, concordaram com Cameron. Esses escribas não levaram em conta como a maior recessão desde os anos 1930 e o programa de austeridade implementado pelo governo suscitaram a erosão da qualidade de vida das classes médias e pobres. Também ignoraram o fato de os integrantes de minorias serem os mais afetados pela crise e pelo programa de austeridade. Colunistas da imprensa brasileira adotaram, acríticos, a fórmula de Cameron: os rebeldes são ladrões.

Cameron, vale exprimir, está atravessando a crise mais grave desde que assumiu o cargo, 15 meses atrás. Teve de encurtar suas férias na Toscana, e, ao chegar a Londres, vestiu a camisa do premier linha-dura. Em grande parte, adotou essa postura devido à sua imagem negativa nas pesquisas. Em uma delas, a maioria das 2.534 pessoas interrogadas (57%) revelou-se insatisfeita com a lenta reação do primeiro-ministro. Na mesma enquete, a maioria dos britânicos (42%) estimou que as manifestações estão ligadas a comportamentos criminosos. E apenas 8% dos interrogados acham que a onda de violência é consequência do programa de austeridade. Criticado por ter tido de cortar 16.200 policiais por conta do programa de austeridade, Cameron cogita usar o exército se houver novos protestos.

Nas revoltas que sacudiram a França no final de 2005, os jovens também não tinham uma agenda. Como os ingleses, saquearam lojas e supermercados. Adotaram, ainda, a prática de incendiar automóveis. Na verdade, o problema, como sempre nessas revoltas a assolar a Europa, é muito mais profundo. Além de ter raízes na recessão, a questão do racismo sempre entra na equação. Na Grã-Bretanha, os conflitos tiveram início dois dias depois de a Scotland Yard matar Mark Duggan, um negro de 29 anos e pai de quatro filhos. Na esteira, minorias e brancos – e, de fato, hoodies –, se agregaram às manifestações país afora.

O programa de austeridade provocou o declínio dos serviços públicos, e o nível de desemprego, principalmente no setor público, está em ascensão. As medidas adotadas pelo governo alastram a fissura entre privilegiados e classes médias. O governo de Cameron cortou, por exemplo, os impostos do 1% dos mais endinheirados e aumentou o valor agregado – em período de recessão. Em suma, o poder aquisitivo das classes médias só pode declinar. Ao mesmo tempo, a fatia dos pobres, em sua maior parte formada por minorias marginalizadas, cresce.

Quem não ficaria revoltado com essas medidas a favorecer os privilegiados? Lee Jasper, ativista pelos direitos das minorias, respondeu para o diário italiano La Repubblica: “Condeno a violência, mas em parte. Condeno mais a violência econômica: o desemprego, a falta de oportunidade para os jovens no futuro. Essa violência não é reconhecida”.

Na verdade, não surpreende o fato de essas revoltas terem acontecido no Reino Unido, o país com maior disparidade social na Europa. Segundo um artigo do semanário Time, publicado em 2008, uma em cada três crianças nasce abaixo do nível de pobreza. A escassa possibilidade de mobilidade social deve-se à estrutura de classes, mantida pelas elites em grande medida por meio do sistema escolar. O ensino na maioria das escolas públicas é muito inferior ao das particulares. No setor público a média de alunos por classe é 26,2% comparada a 10,7% no privado.

A Fulham Prep School, escola privada ao sudoeste de Londres, cobra 24 mil dólares ao ano por criança. Essas escolas formam os futuros alunos de Oxford e Cambridge (ou Oxbridge), num reino onde 93% da população estudam em escolas públicas. Se os 7% a frequentar as particulares chegam a Oxbridge, cerca de 50% dos alunos de escolas públicas têm o mesmo paradeiro. E qual será o porcentual dos outros 50% que viram violentos hoodies? Esses excluídos tendem a participar em levantes de todos os tipos. E saqueiam. Mas as raízes dos levantes são mais profundas…

Fonte: Carta Capital

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