27 de agosto de 2010

sorrindo. mesmo que para ninguém

É a pressa que se anuncia angustiantemente forte a ponto de fazer explodir. Pressa em fazer algo, em ser no final de tudo o resultado

Então tento esquecer minha agonia. Sento e, sem pressa, leio palavra por palavra. E a literatura então volta a fazer sentido, mesmo que interno a mim e não no outro.

É que Foucault fez eu me sentir mais louco. Mostrou que a literatura feita a partir do século 19 é voltada para si mesma, desprendida da necessidade de lutar pelo Humanismo. É a desilusão com o projeto Iluminista. Essa mesma desilusão que vai fazer o pessoal de Bataille cortar a cabeça do Homem. Me lanço inteiro nesse meu assunto de conclusão de curso e acabo preso no texto. Preso para ser liberto, talvez. É que cada texto é único, é uma reinvenção da literatura. E segundo Foucault, não importa ao escritor louco (esse que parte de Sade e não tem mais pretensões humanistas de salvação) se existe alguém que o leia. O texto é fechado em si como finalidade última. Interagir com os leitores é um fato além do texto.

Daí me pego pensando: será que alguém vai ler o que estou escrevendo? Se eu for contar pelo número de comentários no blog, eu diria que poucos, quase ninguém. Dessa forma estaria eu continuando uma tradição da escrita louca de Sade, Artaud e mais um monte de gente? Seria assim a literatura inteira até os dias de hoje? Acho que não. Mas é bem louco pensar numa escrita para ninguém. É quase o mesmo que guardar tudo numa gaveta, com a diferença de que na internet, um bichinho verde, o mesmo do conto de Clarisse, pode posar na página virtual. E daí eu já teria um interlocutor.

Como é sempre a esperança a última que morre, termino esse post de sexta-feira à noite com um poema pra lá de positivo do meu amado Mario Quintana.



Pequeno poema de após chuva

Frescor agradecido de capim molhado

Como alguém que chorou

E depois sentiu uma grande, uma quase envergonhada alegria

Por ter a vida

Continuado...



Do livro Baú De Espantos

2 comentários:

Amanda disse...

É. Mas, acredito que nenhum texto seja preso a ele mesmo. Ele é influenciado pelas vivências diversificadas do autor ou de alguém que fez o autor pensar nelas. Por isso, por mais que o texto acabe numa gaveta ele já teve repercussão. Talvez não depois com multidões, mas antes até ser escrito por uma ou duas pessoas. E Foucault, querendo ou não, pensou a relação das instituições com o indivíduo. Inclusive em relação à loucura.

Por detrás da malha fina disse...

mas a literatura como uma ferramenta didática já nao existe mais (pelo meos nao a princípio), e isso é uma conquista da literatura moderna. Por isso a literatura torna-se fechada em si, a linguagem é voltada para a própria linguagem e dessa forma é sempre um exercício de meta-ficcao.
Por isso ele encerra em si. E quando alguem o le, já é outro texto, o leitor reconstroi aquele texto à sua maneira.