No dia em que estava mais cansado e queria apagar por milhões de horas, como aqueles personagens do filme A Origem, que ficam o tempo inteiro dormindo e vivendo nos sonhos, no dia que eu mais queria dormir, eis que latidos incansáveis me fazem levantar assustado. Simba pula e se agita de um lado para o outro do quarto, percebe que eu acordei e late ainda mais. Eu tento gritar, mando ele calar a boca, mostro que a água dele está no lugar. Nada. Ele queria mesmo me acordar. Saio do quarto e ele vem atrás, daí começo a ficar preocupado. Coloco ele no colo e percebo a perna traseira inquieta. Treme e puxa o tempo inteiro. Cãibra! Pode existir apelação maior que essa? O coração derrete na hora, o sono passa. Fico ali fazendo massagem, faço uma sessão inteira de fisioterapia e tudo certo. Simba, no auge dos seus quase cento e cinco anos (15 X 7 = 105), sai correndo pela casa.
Mas depois disso tudo eu já estava na maior mazela do mundo deitado na cama. E quem está deitado na cama sem dormir, mas também sem estar completamente acordado e de frente para uma televisão assiste o que? Ana Maria Braga, é claro! Então fico ali assistindo ela e o Loro José e toda aquela coisa de que a vida é uma maravilha e a resposta para tudo está em você mesmo. Daí surge um menino que le assustadoramente rápido. Um livro de quatrocentas páginas em uma hora! Mas como assim? Aí me sento. E o neurologista com seu blá blá blá explicando o que acontece (Cadê Foucault e a institucionalização da medicina?). Termino tudo com uma espécie de inveja e desprezo. Por mais rápido que ele leia, onde fica a leitura atenciosa? O close reading não é a melhor forma de se ler? Onde ficam os verbos, a construção das frases, as invertidas da narrativa.
Termino com esse papo furado. Esse menino não é de nada. Mas por via das dúvidas, já já pego um livro qualquer e vejo o que eu posso fazer. E vai ter direito a cronômetro e tudo.
1 comentários:
uehueheuheuh! te amo
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