2 de dezembro de 2009

Lugar comum

Tento fugir do lugar comum mas já não posso. Não posso mais escrever no teclado do computador: apaixonei-me pelas folhas do Moleskini e pela tinta preta que cai suave da caneta.

Não posso fugir do lugar comum. E há pouco, ao falar do Lobo da Estepe e da frieza alemã, tentei, mas não pude. Não consigo fugir da sensação gostosa de acordar, pegar a bicicleta e pedalar até a natação. Sair da natação e pedalar ate o super mercado, encher a bolsa de compras e ir até em casa, isso tudo sem o mínimo medo de ser roubado no caminho, sem nem pensar que isso é possível. Dormir à tarde e depois meter o computador na bolsa e vir até a biblioteca, ficar aqui até meia noite e novamente voltar pedalando para casa, tranquilo.

Não dá para negar toda essa diferença absurda de qualidade de vida que se tem aqui. Estamos, no Brasil, afundados em tanta desgraça e por mais que se fale nisso o tempo inteiro, nos livros jornais nas ruas, por mais que isso seja óbvio, só agora consigo realmente sentir essa diferença, morando nessa porra de país certinho e tranquilo. Fico feliz por nós brasileiros conseguirmos rir tanto de nossas desgraças, mas invejo tanto isso tudo que se tem aqui.

Não posso fugir do lugar comum, do grito de raiva por viver numa merda de país injusto e tão cruel. Impossível sair do lugar comum. Neste exato momento, odeio o meu país. Somente neste exato momento.

1 de dezembro de 2009

Quando se deve parar, parar

Quando se deve parar, parar. E tem tantas coisas nas quais deveriamos nos concentrar e essas coisas no fim se resumem a nos mesmos, o que ao mesmo tempo é muito dificil. Deixo aqui um texto que Samuel me mandou. O texto é um pouco grande mas vale muito à pena ler. E quem quiser ler mais: Ensinamentos sobre o amor, de Thich Nhat Hanh. Um dos livros mais lindos que ja li.

Parar, Acalmar-se, Descansar e Curar-se
Thich Nhat Hanh

Existe uma história zen sobre um homem e um cavalo. O cavalo está galopando rapidamente, e parece que o homem que cavalga se dirige a algum lugar importante. Outro homem, em pé ao lado da estrada, grita: "Aonde você está indo?" e o homem a cavalo responde: "Não sei. Pergunte ao cavalo!" Esta é a nossa história. Estamos todos sobre um cavalo, não sabemos aonde vamos e não conseguimos parar. O cavalo é a força de nossos hábitos que nos puxa, e somos impotentes diante dela. Estamos sempre correndo, e isso já se tornou um hábito. Estamos acostumados a lutar o tempo todo, até mesmo durante o sono. Estamos em guerra com nós mesmos, e é fácil declarar guerra aos outros também.Precisamos aprender a arte de fazer cessar — parar nosso pensamento, a força de nossos hábitos, nossa desatenção, bem como as emoções intensas que nos regem. Quando uma emoção nos assola, ela se assemelha a uma tempestade, que leva consigo a nossa paz. Nós ligamos a TV e depois a desligamos, pegamos um livro e depois o deixamos de lado. O que podemos fazer para interromper este estado de agitação? Como podemos fazer cessar o medo, o desespero, a raiva e os desejos? É simples. Podemos fazer isso através da prática da respiração consciente, do caminhar consciente, do sorriso consciente e da contemplação profunda — para sermos capazes de compreender. Quando prestamos atenção e entramos em contato com o momento presente, os frutos que colhemos são a compreensão, a aceitação, o amor e o desejo de aliviar o sofrimento e fazer brotar a alegria.Mas a força do hábito costuma ser mais forte do que nossa vontade. Dizemos e fazemos coisas que não queremos e depois nos arrependemos. Causamos sofrimento a nós mesmos e aos outros, e de forma geral produzimos grande quantidade de destruição. Podemos ter a firme intenção de nunca mais fazer isso, mas sempre acabamos fazendo de novo. Por quê? Porque a força do hábito (vashana) acaba vencendo e nos levando de roldão.Precisamos da energia da atenção plena para perceber quando o hábito nos arrasta, e fazer cessar esse comportamento destrutivo. Com atenção plena, temos a capacidade de reconhecer a força do hábito a cada vez que ela se manifesta. "Alô força do hábito, sei que você está aí!" Nessa altura, se conseguirmos simplesmente sorrir, o hábito perderá grande parte de sua força. A atenção plena é a energia que nos permite reconhecer a força do hábito e impedi-la de nos dominar.Por outro lado, o esquecimento ou negligência é o oposto.Tomamos uma xícara de chá sem sequer perceber o que estamos fazendo. Sentamo-nos com a pessoa que amamos mas não percebemos que a pessoa está ali. Andamos sem realmente estar andando. Estamos sempre em outro lugar, pensando no passado ou no futuro. O cavalo dos nossos hábitos nos conduz, e somos prisioneiros dele. Precisamos deter este cavalo e resgatar nossa liberdade. Precisamos irradiar a luz da atenção plena em tudo o que fizermos, para que a escuridão do esquecimento desapareça. A primeira função da meditação — shamatha — é fazer parar.A segunda função da shamatha é acalmar. Quando sofremos uma emoção forte, sabemos que talvez seja perigoso agir sob sua influência, mas não temos força nem clareza suficientes para nos abstermos. Precisamos aprender a arte de respirar, de inspirar e expirar, parando tudo o que estamos fazendo e acalmando nossas emoções. Precisamos aprender a nos tornar mais estáveis e firmes, como se fôssemos um carvalho, e não nos deixar arrastar pela tempestade de um lado para outro. O Buddha ensinou uma variedade de técnicas para nos ajudar a acalmar corpo e mente, e considerar a situação presente em toda a sua profundidade. Essas técnicas podem ser resumidas em cinco estágios:
Reconhecimento: se estamos zangados, dizemos "reconheço que a raiva está dentro de mim".
Aceitação: quando estamos zangados, não negamos a raiva. Aceitamos aquilo que está presente em
Acolher: abraçamos a raiva como faz uma mãe com o filho que chora. Nossa atenção plena acolhe a emoção, e só isso já é capaz de acalmar a raiva e a nós mesmos.
Olhar em profundidade: quando nos acalmamos o suficiente, conseguimos observar profundamente para entender o que provocou a raiva, ou seja, o que está fazendo o bebê chorar.
Insight: o fruto do olhar profundo é a compreensão das causas e condições, tanto primárias quanto secundárias, que provocaram a raiva e fizeram nosso bebê chorar. Talvez ele esteja com fome. Talvez o alfinete da fralda o esteja machucando. Talvez nossa raiva tenha surgido quando um amigo nos falou em um tom ofensivo, mas de repente nos lembramos de que essa pessoa não está bem hoje porque seu pai está muito doente. Continuamos a refletir dessa forma até compreendermos a causa de nosso atual sofrimento. A compreensão nos dirá o que fazer ou não fazer para mudar a situação.
Depois de nos acalmarmos, a terceira função da shamatha é o repouso. Suponha que alguém nas margens de um rio joga uma pedra para o ar e a pedra cai no rio. A pedra afunda lentamente e chega ao fundo do rio sem esforço algum. Depois que a pedra chega ao fundo do rio, ela descansa, deixando que a água passe por ela. Quando sentamos para meditar podemos nos permitir repousar da mesma forma que essa pedra. Podemos nos deixar afundar naturalmente, na posição sentada — repousando, sem fazer esforço. Temos que aprender a arte de repousar, permitindo que nosso corpo e nossa mente descansem. Se tivermos feridas em nosso corpo e em nossa mente precisamos repousar para que elas possam por si só se curar.O ato de se acalmar produz o repouso, e o descanso é um pré-requisito para a cura. Quando os animais selvagens estão feridos, eles procuram um lugar escondido para deitar, e descansam completamente por muitos dias. Não pensam em comida nem em mais nada. Apenas descansam, e com isso obtêm a cura de que precisam. Quando nós seres humanos ficamos doentes, nos preocupamos o tempo todo. Procuramos médicos e remédios, mas não paramos. Mesmo quando vamos para a praia ou para as montanhas com a intenção de descansar, não chegamos realmente a repousar, e voltamos mais cansados do que partimos. Temos que aprender a repousar. A posição deitada não é a única posição de descanso que existe. Podemos descansar muito bem durante meditações sentados ou caminhando. A meditação não deve ser um trabalho árduo. Simplesmente permita que seu corpo e sua mente descansem, como o animal no mato. Não lute. Não há necessidade de fazer nada nem realizar nada. Eu estou escrevendo um livro, mas não estou lutando. Estou descansando. Por favor, leiam este livro de uma forma alegre e relaxante. O Buddha disse: "Meu Dharma é a prática do não-fazer."1 Pratiquem de uma forma que não seja cansativa, mas que seja capaz de proporcionar descanso ao corpo, às emoções e à consciência. Nosso corpo e mente sabem curar a si mesmos se lhes dermos uma oportunidade para isso.Parar, acalmar-se e descansar são pré-requisitos para a cura. Se não conseguirmos parar, nosso ritmo de destruição simplesmente vai prosseguir. O mundo precisa imensamente de cura. Os indivíduos, comunidades e países estão cada vez mais necessitados de cura.
(Thich Nhat Hanh. The heart of the Buddha's teaching - transforming suffering into peace, joy, and liberation:the four noble truths, the noble eightfold path and other basic Buddhist teachings. Broadway Books: New York, 1999.)

30 de novembro de 2009

Lobo da estepe

Escrever e escrever. Mas o que? Nao sei. Apenas isso: pensar e ser.

Contamino-me por Harry. Pelo lobo da estepe. Lobo selvagem, isolado, vivendo nos campos desertos e frios, na Estepe. Um livro de palavras tristes mas para cima, envolvente. Onde a única saida é o humor, o riso. É a isso que estamos todos condenados. E se nao percebemos isso em vida? Tudo bem, rimos da desgraca e deixamos para a proxima.

É bem curioso esse livro ter sido escrito por um alemao. As pessoas sao tao frias aqui, o riso fica sempre por ultimo e somente no canto da boca. Ontem me falaram que houve uma discussao numa sala de aula em que uma alema que morou nos Estados Unidos falou bem do costume de se perguntar como a pessoa está quando se encontra alguem conhecido na rua.

- Mas isso nao faz sentido, é falso. As pessoas nao querem realmente saber como voce esta. Perguntam por perguntar.

Foi a opinicao de quase todos na sala. Entao penso: sera que é melhor da um simples oi, um comprimento seco qualquer? Um outro alemao ja me veio elogiar os brasileiros pelo abraco ao encontrar amigos, pela "mente aberta", segundo suas palavras. Entao trocamos o comprimento seco pela hipocresia gostosa do "como vai voce". Escolhemos o riso e nos encontramos cmo Hermann Hesse, com a descoberta de que o humor é a única saída.

Lembro-me disso tudo porque hoje assisti o filme, depois de ter lido o livro meses antes. Queria tanto que todos tivesses acesso a isso. Tocassem isso, de uma ou de outra. O lobo. A danca. O jazz, a música. Mozart. Goethe, todos na loucura de Harry, abracando o riso como última saída.

Nao sei como se pode viver de outra forma. Sem amor, riso, tesao pelo que se faz, como se pode viver? Fora isso nao resta nada. Sim, vamos todos dar uma enorme gargalhada.

"Amor
Humor."
Oswald de Andrade

Até que nao reste mais que o charme

Numa quinta-feira à noite

As vezes me dá toda essa vontade repentina de explosão. Não escrevi ontem e hoje acho que também não irei. Pelo menos não no papel. Corro agora para o Blue Note ouvir um jazz foda e tomar cerveja. Corro. Tenho vontade de correr. O jazz vai comigo na bicicleta. E quando eu cruzar o rio Elba, lá de cima da ponte, sei que o sax vai explodir em meus ouvidos.

E mais. Amo essas folhas amarelas, minhas noites na biblioteca e madrugadas insones, tudo nessa minha vida contaminada de êxtase. Até me resto somente o charme.

"apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme"
Leminski

24 de novembro de 2009

Don Quixote

Faz-me bem ler Don Quixote, mesmo me atrapalhando na falta de vocabulário espanhol: vou pedir para Rafa me trazer o meu Don Quixote em português. Toda loucura produzida por excesso de leitura faz um velho de cinquenta anos (as notas no livro dizem que a expectativa de vida na época era de trinta a quarenta anos) sair para viver as próprias aventuras inspirado nos livros de cavalaria.

São prostitutas que aos seus olhos viram donzelas, pedaços remendados de arma que são todos seu arsenal, um cavalo que não aguenta muita coisa, o Rocinante, e um ajudando, o Sancho Panca.
Ainda estou no inicio da leitura mas já sinto a beleza de tudo que vem a seguir. Vi em algum lugar que Dostoievski disse que ler Don Quixote já faz valer a vida. Sem dúvida existe algum de apaixonante nisso tudo.



21 de novembro de 2009

Seguindo as pistas de K.M.

Meu aniversário esta chegando. Cai numa segunda-feira. Como seria? Uma segunda-feira seria como qualquer outra. Sentado na biblioteca durante horas, lendo, escrevendo, pensando, sonhando, exatamente como faco agora, como faco todos os meus dias: o meu melhor jeito de viver. Mas essa segunda é meu aniversário. Se pudesse escolher um presente, escolheria esquecer que é meu aniversário. Simplesmente sentar na biblioteca: ler, escrever, sonhar.

- É seu aniversário! - disse-me com os olhos em chamas.

- Sim. É meu aniversário.

- "Oh, how facinating it was! How she enjoyed it. How she loved sitting here, whatching it all! It was like a play. It was exactly like a play. Who could believe the sky at the back wasn´t painted? But it wasn´t till a little brown dog trotted on solemn and then slowly trotted off, like a little 'theatre' dog, a little dog that had been drugged, that Miss Brill discouvered what it was that made it so exciting". Ah, que apaixonante e bela é Katerine Mansfield.

- Entao, senta-te e observa. Vais ter certeza que todo esse ceu mudando de cor é pintado- é o que me diz K.M.

Me consola saber que posso sentar e observar um cachorro encenando. Mas me desespero ao prever meu futuro: na segunda-feira eu serei o cachorro encenando.

18 de novembro de 2009

I fall in love again

É tao bom estar de volta em casa sem nem mesmo ter saído do lugar. É o que dá de saudade e te faz olhar para trás com os olhos voltados para frente, para tudo ques tá por vir, que é tao belo e dá uma felicidade que se sente no fundo do coracao. É pedir desculpa por estar longe e chegar no quarto com todo amor do mundo. Nao tirar o fone de ouvidos porque a trila sonora de Juno está jogando melodias para fora do contexto, tudo de beleza, aquele amor inteiro.

Don´t you remenber you told me you love me baby?

Só a luz do abajur.

Long ago. So far away. i fall in love again.

Escrever e viver. Amar. Vivo escreve amo cada vez mais. Passado, presente, futuro. Tudo calado, posto em palavras, o gozo de se brincar com a linguagem. De se brincar com o amor. De se amar. Viver isso tudo com os olhos vidrados em qualquer coisa.

I love you. I really do.