12 de agosto de 2011

Todos estao loucos?

É assustador como o discurso da imprensa hegemônica se espalha e se repete na boca de todos como se fosse a verdade absoluta. Mais assustador ainda é ver como essa suposta verdade absoluta é totalmente sem sentido, parece fruto de mentes preguiçosas que não conseguem ir além de alguma reflexão. O grande problema é que, além desse discurso midiático estar tomando conta de todas as esquinas, se repete até em algumas pessoas de tendências esquerdistas e sempre atentas a essa “falha de comunicação” da nossa mídia. É assustado dessa forma que tento colocar aqui algumas boas reflexões sobre o que tem acontecido da Inglaterra nos últimos dias.


Sejamos claros: será que um monte de gente ia sair destruindo lojas, queimando prédios e expondo suas vidas pelo simples prazer da violência gratuita? Mais inacreditável ainda: são loucos e fazem parte de um surto psicótico que assombra um país inteiro? O que me parece surpreendente é que é mais fácil admitir que são loucos ou baderneiros que tentar buscar uma causa para tal coisa.

Ninguém lembra que em Paris, há alguns anos atrás, aconteceu coisa parecida. Eram também negros, também minorias étnicas que não tem acesso aos bens, cada vez mais escassos, do “estado de bem estar social” europeu. Não defendo a violência por si só: é triste, assustador, machuca. Mas não consigo ficar calado ao ver todo mundo reproduzindo um discurso hipócrita que tenta esconder um grave problema de resseção econômica e esfacelamento das políticas sociais simplesmente chamando de loucos aqueles que se revoltam.

O vídeo e o texto abaixo dão conta de explicar melhor tudo isso. Espero que isso não fique somente entre nós: vamos ter oportunidades de outras leituras que não essa porcaria que circula na televisão.



Rebeldes, mas não ‘ladrões’
Gianni Carta - 12 de agosto de 2011



A onda de violência na Grã-Bretanha foi provocada por um bando de “ladrões” e “doentes”. Numerosos pertencem a gangues de jovens encapuzados, os hoodies. Palavras do primeiro-ministro britânico, David Cameron, em sessão extraordinária no Parlamento, nesta quinta-feira 11. Em miúdos, os ladrões, ou doentes, ou quem sabe ladrões doentes encapuzados, não têm uma agenda. Só querem saquear.

Foram raros os articulistas britânicos a questionar o discurso simplista do primeiro-ministro conservador. Para minha surpresa, até colunistas de diários de esquerda, como o The Independent, concordaram com Cameron. Esses escribas não levaram em conta como a maior recessão desde os anos 1930 e o programa de austeridade implementado pelo governo suscitaram a erosão da qualidade de vida das classes médias e pobres. Também ignoraram o fato de os integrantes de minorias serem os mais afetados pela crise e pelo programa de austeridade. Colunistas da imprensa brasileira adotaram, acríticos, a fórmula de Cameron: os rebeldes são ladrões.

Cameron, vale exprimir, está atravessando a crise mais grave desde que assumiu o cargo, 15 meses atrás. Teve de encurtar suas férias na Toscana, e, ao chegar a Londres, vestiu a camisa do premier linha-dura. Em grande parte, adotou essa postura devido à sua imagem negativa nas pesquisas. Em uma delas, a maioria das 2.534 pessoas interrogadas (57%) revelou-se insatisfeita com a lenta reação do primeiro-ministro. Na mesma enquete, a maioria dos britânicos (42%) estimou que as manifestações estão ligadas a comportamentos criminosos. E apenas 8% dos interrogados acham que a onda de violência é consequência do programa de austeridade. Criticado por ter tido de cortar 16.200 policiais por conta do programa de austeridade, Cameron cogita usar o exército se houver novos protestos.

Nas revoltas que sacudiram a França no final de 2005, os jovens também não tinham uma agenda. Como os ingleses, saquearam lojas e supermercados. Adotaram, ainda, a prática de incendiar automóveis. Na verdade, o problema, como sempre nessas revoltas a assolar a Europa, é muito mais profundo. Além de ter raízes na recessão, a questão do racismo sempre entra na equação. Na Grã-Bretanha, os conflitos tiveram início dois dias depois de a Scotland Yard matar Mark Duggan, um negro de 29 anos e pai de quatro filhos. Na esteira, minorias e brancos – e, de fato, hoodies –, se agregaram às manifestações país afora.

O programa de austeridade provocou o declínio dos serviços públicos, e o nível de desemprego, principalmente no setor público, está em ascensão. As medidas adotadas pelo governo alastram a fissura entre privilegiados e classes médias. O governo de Cameron cortou, por exemplo, os impostos do 1% dos mais endinheirados e aumentou o valor agregado – em período de recessão. Em suma, o poder aquisitivo das classes médias só pode declinar. Ao mesmo tempo, a fatia dos pobres, em sua maior parte formada por minorias marginalizadas, cresce.

Quem não ficaria revoltado com essas medidas a favorecer os privilegiados? Lee Jasper, ativista pelos direitos das minorias, respondeu para o diário italiano La Repubblica: “Condeno a violência, mas em parte. Condeno mais a violência econômica: o desemprego, a falta de oportunidade para os jovens no futuro. Essa violência não é reconhecida”.

Na verdade, não surpreende o fato de essas revoltas terem acontecido no Reino Unido, o país com maior disparidade social na Europa. Segundo um artigo do semanário Time, publicado em 2008, uma em cada três crianças nasce abaixo do nível de pobreza. A escassa possibilidade de mobilidade social deve-se à estrutura de classes, mantida pelas elites em grande medida por meio do sistema escolar. O ensino na maioria das escolas públicas é muito inferior ao das particulares. No setor público a média de alunos por classe é 26,2% comparada a 10,7% no privado.

A Fulham Prep School, escola privada ao sudoeste de Londres, cobra 24 mil dólares ao ano por criança. Essas escolas formam os futuros alunos de Oxford e Cambridge (ou Oxbridge), num reino onde 93% da população estudam em escolas públicas. Se os 7% a frequentar as particulares chegam a Oxbridge, cerca de 50% dos alunos de escolas públicas têm o mesmo paradeiro. E qual será o porcentual dos outros 50% que viram violentos hoodies? Esses excluídos tendem a participar em levantes de todos os tipos. E saqueiam. Mas as raízes dos levantes são mais profundas…

Fonte: Carta Capital

27 de julho de 2011

Viver à Hemingway


Clique aqui para ver a imagem ampliada

A imagem abaixo sugere uma vida intensa, repleta de novidades e histórias para contar. É viver à moda Hemingway, escritor fantástico e cujo estilo pode ser visto no novo filme de Woody Allen, Paris at Midnight.
A imagem foi tirada do blog 1000memories.com e linkada pelo blog painel das letras.



19 de julho de 2011

A tecnologia pode ser a resposta, mas qual é a pergunta?

Colo aqui uma ótima entrevista com Eduardo Giannetti concedida à Página 22. Nela ele fala sobre a importância de se pensar a felicidade (e tudo que está à sua volta) como indicador de desenvolvimento. Ele não se refere ao Butao (país que foi tema de um Globo Reporte, encantou a todos, mas não é tao bonitinho como aparenta, como ele explica nesta entrevista). A resposta passa, então, pelo comedimento no consumo, pela superação da miséria sem a disseminação do consumo ostensivo, pela sustentabilidade não como bandeira cult do politicamente correto, mas como modo de vida consciente e mais prazeroso.

Ao invés de continuar explicando, sugiro que leiam a entrevista. É um pouco grande (para um texto de blog, né?), mas vale muito à pena.

O que realmente importa? Essa é a pergunta. É a pergunta que a discussão da felicidade inspira, a ponto de provocar Eduardo Giannetti a unir as pontas da Filosofia e da Economia, em busca das questões viscerais do indivíduo e da civilização. “Nós queremos ter mais tempo para conviver com os nossos amigos, nossos filhos, para buscar o conhecimento, para usufruir da natureza? Ou queremos competir violentamente para consumir cada vez mais e ficar com uma sensação crescente de falta de tempo?”, pergunta o autor de livros como Felicidade, Autoengano e O Valor do Amanhã (Companhia das Letras).




A Pergunda Motriz

Ph.D. pela Universidade de Cambridge e professor do Insper, Giannetti esmiúça um dos grandes paradoxos da história humana, calcado no Iluminismo, quando se fez acreditar que o aumento contínuo da prosperidade elevaria o grau da felicidade.



Mas calma lá. Mesmo que a discussão da felicidade invalide o argumento do capitalismo, baseado no crescimento econômico perpétuo, a equação matemática é mais complicada. Há 4 bilhões de pessoas que ainda precisam atingir o nível de conforto básico, a partir do qual passariam a aspirar outras formas de felicidade, para além do consumo material. Os recursos naturais limitados darão conta de prover esse conforto mínimo para todos? Uns diriam que a saída está na tecnologia. Giannetti discorda. A tecnologia até pode ser a resposta, mas qual é mesmo a pergunta? O que nos remete ao início.

O que o levou a se debruçar sobre o tema felicidade? O senhor acredita que este é o valor supremo, que move todos os seres humanos?
Eu sempre me preocupei com um tema que é central: a ética, a melhor vida ao meu alcance. E acabei me voltando para um estudo sistemático, na história da filosofia, das diferentes concepções da melhor vida para o ser humano. A certa altura, percebi que havia um esforço recente de pesquisa empírica, especialmente por economistas, sobre os determinantes da felicidade. E me ocorreu juntar as pontas. De um lado, a discussão de felicidade que vem pelo menos desde a Grécia Antiga. E, de outro, um esforço mais empírico de estudo sobre o que se passa com a vida humana na medida em que as condições externas, de renda, de saúde, de longevidade, alteram-se.

Sempre me interessou e inquietou muito a relação entre a dimensão objetiva da vida, aquilo que pode ser observado e medido, e a dimensão subjetiva, que se passa na interioridade e na imaginação humanas. E esse tema da felicidade é particularmente rico, porque os resultados mostram que não há uma relação bem-comportada entre uma e outra. Os filósofos e economistas imaginaram, no passado, que, quanto mais progredisse a civilização, mais os homens se tornariam felizes.

É aquela pergunta norteadora do seu livro, Felicidade… Sim, da harmonia preestabelecida entre o processo civilizatório e a felicidade humana. Alguns autores, no passado, questionaram essa ideia. E os resultados empíricos confirmam que não há uma relação tão linear. O que é uma boa notícia para quem se preocupa com sustentabilidade. Se houvesse uma relação direta entre aumento de renda e do bem-estar subjetivo, não haveria argumento para propor um mundo em que a maximização da renda, o domínio da natureza pela tecnologia e o progresso em sentido econômico deixassem de ser a grande prioridade. Já que não há essa relação a partir de certo nível de renda, outras coisas mais importantes devem ser consideradas.

A felicidade desmente a tese capitalista do crescimento econômico contínuo? O crescimento não é um fim, é um meio para a realização e para o bem-estar humano. Mas é um meio que se esgota. A partir de um determinado nível de renda, que não é lá tão alto, não há evidência de que mais renda se traduza em vidas mais plenas, felizes e dignas de serem vividas.

Esse seria um parâmetro que deveria orientar o desenvolvimento, enquanto se rediscute esse conceito para além do desempenho econômico? Nós sabemos hoje que o progresso econômico não redunda em níveis crescentes de felicidade e nós sabemos que o progresso econômico ameaça o equilíbrio ecológico do planeta. Estas são as duas grandes realidades do século XXI. E nós precisamos entender quais são os caminhos alternativos que podem emergir a partir desses limites. Que outros valores podem, daqui para a frente, orientar as vidas humanas.


E quanto a outros valores,a como justiça, liberdade, democracia? Ao usar a felicidade como valor norteador não se corre o risco de encobrir dilemas, dores e sofrimentos que são necessários ao aperfeiçoamento humano e da sociedade? Nada é tudo. Nem a felicidade é tudo. E não é o único parâmetro da espécie humana. Depende muito de como você concebe a felicidade. Uma coisa é estar feliz. É um estado de ânimo. Outra coisa é o ser feliz: o que eu fiz da minha vida, e até que ponto a vida que tenho é satisfatória ou é algo em que eu me reconheça. O que interessa mais para a perspectiva filosófica é a dimensão existencial e ética do ser feliz. E, nessa dimensão, a maximização da felicidade local nem sempre é o melhor caminho. Uma vida plena contempla uma dose razoável de frustração, descontentamento, infelicidade. Porque é uma vida criativa que busca ser alguma coisa que não é.

Eu posso conceber uma vida que tenha momentos alucinadamente felizes e, no entanto, no arco de uma trajetória, não seja bem vivida. A relação entre o ser e o estar feliz não é trivial. Os jovens, de um modo geral, pensam a felicidade na dimensão do estar feliz. O que a maturidade traz, quando ela vem, é uma perspectiva de que a melhor vida não é uma que olha só para o que eu posso fazer agora em termos de prazer. E aceita que, muitas vezes, para você conseguir alguma coisa que faça sentido no tempo, é preciso abrir mão de outras que fazem sentido localmente. Esse é um passo difícil para o ser humano, especialmente na juventude, quando tudo clama pelo momento.


Já que estamos falando de limites e frustrações… a sustentabilidade tem muito disso. Na sua veia mais ambientalista, tem impregnada a defesa do comedimento, da privação do consumo considerado frívolo, uma preocupação constante com o futuro. Esse discurso coaduna com felicidade? Sem dúvida. Nós estamos falando de duas dimensões que têm uma estrutura comum. Na vida pessoal, a ideia de que a melhor vida requer uma boa dose de abnegação e de sacrifícios, em nome de objetivos futuros, e também de aposta, porque não temos nenhuma certeza de que esses objetivos serão alcançados. E, na dimensão coletiva, aceitar que a frustração e o descontentamento são os grandes motores da mudança. E que consumir todos os recursos do planeta a curto prazo para maximizar um hedonismo certamente comprometerá as gerações futuras e a própria viabilidade biológica da espécie.


Então não há uma incoerência entre sustentabilidade e felicidade quando se concebe essa dimensão do sacrifício? Depende como você concebe a felicidade. A pergunta que nós precisamos nos fazer é: consumo, renda, progresso econômico indefinidamente dão sentido ao esforço coletivo da humanidade? Ou será que nós já chegamos ao momento em que podemos colocar o econômico no segundo plano e buscar outro tipo de realização, mais ligado a valores da criação, da existência, dos relacionamentos, da harmonia com a natureza, da estética, da busca do conhecimento?

Conforme falamos, alcançado determinado nível de renda, em torno de US$ 10 mil anuais per capita, o aumento da renda para de exercer influência sobre a satisfação e o bem-estar. Mas há cerca de 4 bilhões de pessoas no mundo vivendo sob condições indignas e que ainda precisam chegar lá. Nesse caso, será inevitável aumentar o consumo e a renda. Mas, considerando-se a limitação de recursos, de energia, pico climático, pico do petróleo… haverá um conforto mínimo para todos? Ou seja, a felicidade será possível para todos? O primeiro ponto é que as condições de vida não garantem a felicidade de ninguém. As condições de vida podem aumentar o escopo da busca da felicidade. Mas nenhuma solução externa vai resolver para cada um de nós esse anseio de uma vida bem vivida. Foi um mito do século XX a ideia de que um sistema econômico daria conta da busca da realização e do bem-estar. Isso só pode partir do indivíduo. O que nós podemos esperar de um sistema econômico e de um arranjo institucional é que não cerceiem o desenvolvimento do potencial de cada ser humano. Na terminologia do Amartya Sen, é a capacitação.

Certo, mas essa conta fecha? Essa conta não fecha. Se você começar a extrapolar o aumento do consumo de leite, de carne, de automóvel, de ar condicionado, não fecha.

Eu me refiro a condições mínimas para que as pessoas tenham conforto e tranquilidade suficientes para buscar a felicidade, inclusive pela via imaterial. Alguns colegas meus economistas responderiam à sua pergunta dizendo que a tecnologia e a ciência vão fazer essa equação fechar. Eu não compartilho desse otimismo tecnológico.
Deverá ser uma mudança pela dor? Ou será uma mudança por modo de vida, valores, por antecipação, ou será uma mudança imposta de fora e provavelmente com o sacrifício de muitas liberdades com as quais nós estamos familiarizados.


E aí a felicidade entra onde? Aí vai ser um processo muito mais doloroso para todos. A imagem que me vem à mente é a de um fumante inveterado que tem um diagnóstico de enfisema pulmonar. Ou ele continua fumando e isso vai piorar, ou ele muda de vida e encontra outras fontes de satisfação que não o tabagismo. Como humanidade, nós estamos nessa situação. Por enquanto continuamos fumando como se nada tivesse acontecido. Por tudo que se estuda e se conhece sobre felicidade, é muito mais um assunto da imaginação do que do bolso. É ocupar um lugar relativo de honra na mente do semelhante. Isso é uma coisa que Adam Smith já falava. A partir de um determinado nível de renda, que é baixo, as pessoas se preocupam muito mais com a posição que têm na sociedade, com o modo como os outros as percebem, do que com a satisfação direta com o consumo.
Será que a atitude contrária, que repele o consumismo, também não está se tornando uma espécie de distinção em alguns círculos? Ou seja, quanto mais “eco alguma coisa”, tanto maior é a respeitabilidade, o capital simbólico, o status? As pessoas vão competir de uma maneira ou de outra. Isso está dado. O importante é saber se essa competição resulta em alguma coisa que contribui para a melhoria da vida ou se essa competição vai resultar na destruição da vida. Tal como está moldada hoje, é a corrida armamentista do consumo e está nos levando para uma situação extremamente perigosa. Os gregos competiam no teatro, competiam no esporte, competiam na política. A competição econômica não era um valor dominante na Antiguidade.

Quando a economia passou a ter esse peso tão gigantesco? Foi com o Iluminismo? Com a Revolução Industrial? Eu tendo a crer que foi do século XVIII pra cá. E é uma democratização, de certa forma, porque nas sociedades pré-modernas havia uma estrutura social na qual você já estava com a sua vida razoavelmente definida ao nascer. O modelo americano é que você não é reconhecido socialmente pela posição aristocrática, mas por aquilo que fez. E a moeda comum de reconhecimento social é o sucesso no mercado, a grande aspiração daqueles que querem ser winners e não loosers. Isso começa na Europa, mas foram os Estados Unidos que levaram isso às últimas consequências.

E aí isso vem a marcar toda a cultura ocidental… Virou o grupo de referência. Todo mundo, no passado, comparava-se com o seu grupo de referência, que era o bairro, a comunidade. Com os meios de comunicação de massa, o grupo de referência da humanidade virou a mídia. Hoje você vive na imaginação um grupo de referência que está muito pouco vinculado à sua circunstância local. Um sujeito da favela do Rio, eventualmente, está se imaginando no mundo do consumo californiano.

Tem uma discussão que se iniciou num país budista, o Butão, em relação à Felicidade Interna Bruta (FIB). O Reino Unido planeja adotar um indicador nacional de felicidade, e essa discussão está no Brasil também. Haveria aí um movimento inverso, da filosofia oriental influenciando a cultura ocidental? Acho muito bem-vindo esse questionamento do PIB como a métrica do progresso e do desenvolvimento. Se as pessoas vivem numa cidade muito poluída e passam a ter de trabalhar mais para pagar por serviços médicos, o PIB aumenta. Mas a sociedade empobreceu. É muito grave. As pessoas não têm muita noção do problema que existe em medir o progresso por um indicador exclusivamente monetário. A busca hoje é por indicadores mais abrangentes que reflitam as condições de vida e de bem-estar.

O senhor acha que a tendência é de se reverem medidas de desenvolvimento com base na felicidade? Em que ritmo isso está andando? Há muito que melhorar nas metodologias? O ritmo é lento. Acho que não há ainda uma percepção generalizada de quão limitados são os indicadores que nós temos. Mas há uma insatisfação latente que está muito disseminada. O que afinal de contas realmente importa? Essa é a pergunta. Nós queremos ter mais tempo para conviver com os nossos amigos, nossos filhos, para buscar o conhecimento, para usufruir da natureza? Ou nós queremos competir violentamente para consumir cada vez mais e ficar com uma sensação crescente de falta de tempo? Esse é um dos grandes paradoxos dessa história toda. Tudo nos é vendido como tecnologia para economizar o tempo e, no entanto, nós carecemos cada vez mais de tempo para fazer aquilo que desejamos. O Werner Herzog, cineasta alemão, dizia que a solidão humana aumentará na proporção exata do avanço dos meios de comunicação. Nós estamos no mundo das solidões interativas. As pessoas estão hiperconectadas e cada vez mais solitárias. E têm muita dificuldade de estabelecer vínculos humanos permanentes. São relações muito fluidas, superficiais. Eu tenho milhares de amigos numa rede social e não conheço ninguém.

Sobre essa questão do indivíduo e da solidão, podemos dizer que a dimensão coletiva da busca da felicidade se perdeu em certo momento da História? Talvez depois do século XVIII, como falamos? Desde quando a busca da felicidade passou a ser feita individualmente e deixou de ser uma questão coletiva? Mas a felicidade é as duas coisas. O economista, o filósofo, o intérprete da realidade tem que se preocupar com duas coisas: com as condições gerais de existência, ou seja, a saúde, a renda, a violência, e também com o que as pessoas vão fazer de suas vidas a partir das condições com que se deparam. Felicidade tem a ver com essas duas dinâmicas.

Os grandes economistas e filósofos do Iluminismo estavam muito preocupados em melhorar as condições gerais, acreditando que isso por si só garantiria vidas cada vez mais felizes e dignas. O que a experiência vem mostrando é que não é tão simples. A humanidade avançou muito nos indicadores biométricos, econômicos e gerais de bem-estar objetivo, mas não houve uma contrapartida observável de realização, de felicidade.
No passado, muitos filósofos tinham uma ideia substantiva de qual era a melhor vida. “Devemos viver assim.” A minha postura não é tão ousada e tão ambiciosa. Eu acho que nós podemos imaginar quais são as condições que, ao serem atendidas, permitirão a cada indivíduo encontrar e realizar a sua própria visão da melhor vida.

Aí entra um componente de liberdade? Sim, de liberdade. E de descoberta. O valor da liberdade é permitir aos indivíduos, dentro de certos parâmetros, experimentar.

Quando se pensa em indicadores, ou numa política pública, como se pode trabalhar um grau tão variado de interpretações? A política pública deve dar condições para que os indivíduos possam perseguir à sua maneira a sua visão da melhor vida. Não vai dizer: “Viva desse jeito”. As tentativas de tolher demais essa liberdade acabam gerando resultados ruins e não antecipados.

Mas, então, como é que se afere a felicidade? Você pergunta para os indivíduos: como é que você se sente em relação à vida que você leva? É autodeclaratório. A outra linha de pesquisa é a felicidade no sentido do estar feliz. Os sentimentos que você tem ao longo de um intervalo de tempo.

Quer dizer, se um dá uma nota 5, outra pessoa na mesma condição em outro país pode dar uma nota 10. Eu evito comparar países. Eu acho mais interessante olhar no tempo um determinado país ou cultura. E há outros indicadores: tentativas de suicídio, número de vezes em que se precisou de ajuda profissional em relação a problemas de ordem psíquica. Até a genérica conta na felicidade individual. Tem pessoas com maior capacidade de desfrutar a vida do que outras. Mas eu acho que o mundo é melhor pelo fato de existirem muitas visões diferentes do que é viver bem. Eu gosto de estar num mundo em que isso pode ser definido por um Casanova, por um Fernando Pessoa, por uma Janis Joplin, por um Kant… Pessoas buscando novas possibilidades de realização e dedicando suas vidas a isso, mesmo sabendo que podem não encontrar nada.

A sustentabilidade tem um bottom line social que leva em conta um sistema complexo, interdependente, e não o plano individual. Será que o indivíduo, na resposta que dá sobre felicidade a uma pesquisa, leva em conta essa relação? Não. Quando você pergunta para o indivíduo, ele vai olhar para si mesmo, para a dimensão subjetiva da sua existência e para o seu nível de aspiração. Quanto maior o meu nível de aspiração, menor a chance de eu me declarar satisfeito com a vida que eu tenho. Toda infelicidade humana resulta de uma discrepância entre o que eu desejo e o mundo como ele é. Tem duas maneiras de reduzir esse descolamento. Ou você altera o mundo para que ele seja mais próximo daquilo que você deseja, ou, ao contrário, altera os seus desejos e as suas expectativas de modo que, não importa o que aconteça, isso não perturbe o seu bem-estar.

O que pode parecer conformista. São duas estratégias puras. Uma é voluntarista, a outra é adaptativa. O mundo ocidental é uma aposta gigantesca no primeiro caminho. É a tecnologia, o domínio da natureza, o progresso econômico. É a tentativa de moldar o mundo de modo a que ele atenda a todos os meus caprichos e vontades. A estratégia tradicional do Oriente é a da resignação: não importa qual seja o estado de coisas, não se pode permitir que isso altere a minha paz interna e o meu estado de imperturbabilidade.

Toda vida humana individual é uma combinação de estratégias transformadoras e adaptativas. Eu acho que nós estamos caminhando para um estado em que teremos de aceitar limites e buscar maneiras alternativas de encontrar a realização. Lamentavelmente, o Oriente, que era um grande e fiel depositário dessa visão mais contemplativa e menos arrogante, embarcou de maneira muito entusiasmada no projeto iluminista do progresso.

O senhor se refere a que Oriente? Estou falando da China, da Índia, dos mercados emergentes que estão aspirando novos níveis de consumo. As pessoas estão desesperadamente buscando alcançar equiparação com um grupo de referência que é a Europa e os Estados Unidos. Essa conta não fecha. E aí tem um paradoxo que eu estava estudando recentemente. Tecnologias que aparentemente melhoraram a relação consumo-produto, ou seja, dependem de menos energia e menos recursos naturais para gerar utilidade e satisfação, não melhoram coletivamente a situação ambiental. O ar condicionado é um exemplo: se você obtém um ar condicionado a um custo muito menor de energia, você massifica o produto, e aí a demanda se torna muito maior.

É o chamado efeito ricochete, ou rebound effect. É. Eu vi um dado espantoso. O consumo hoje de energia nos Estados Unidos só para refrigeração é maior do que era o consumo todo de energia nesse país nos anos 1950. E agora isso está se espalhando em uma escala planetária.

O que mostra que a tecnologia não será a única resposta… A tecnologia pode ser a resposta, mas qual é a pergunta? (risos) (Em Felicidade, Giannetti cita um button ecológico dos anos 70, com a expressão “Technology is the answer. But, what’s the question?”)

Mas quando uma ideia que parte de um país como o Butão, oriental, com toda a filosofia budista, e vai se consagrar no centro do capitalismo, como no caso do Reino Unido, não tem aí uma mudança? Eu acho que há certa mistificação nessa história, porque o Butão é um Estado autoritário. Eu quero ir à rua no Butão e perguntar para as pessoas se elas podem escolher como se vestem, se podem viajar como gostariam, se estão satisfeitas com o seu nível de renda… Nós precisamos de um processo que venha de baixo para cima.

E o Brasil? O senhor acha que o País alimenta uma obsessão pela alegria? Existe um exibicionismo hedônico no Brasil. O que me preocupa é que há muita ênfase no estar feliz em lugar do ser feliz. O Brasil é imbatível quando se trata de desfrutar o momento que se oferece. Mas, quando se trata de aceitar algum tipo de sacrifício agora para conquistar objetivos futuros, a dificuldade é enorme e às vezes intransponível.

Por um lado, é legal e bonito. Desperta certa perplexidade no resto do mundo. Como é que essas pessoas, que vivem em condições objetivas tão precárias, podem desfrutar a vida a cada momento de maneira tão plena? É o componente africano pré-moderno e indígena. Mas isso tem que ser moderado com uma perspectiva temporal que nos permita também resolver problemas permanentes da nossa convivência.

Tem um mito grego que capta bem isso: o dos irmãos semideuses, Prometeu e Epimeteu. Em grego, Prometeu significa “o que pensa antes de agir” e Epimeteu é “o que age antes de pensar”. Os dois foram punidos pelos deuses. O Prometeu porque roubou o fogo, a tecnologia, que representa o que custou à humanidade a prudência excessiva, a racionalidade. E o Epimeteu, que vive e desfruta o momento de forma muito livre, também foi punido. Ele se casa com Pandora e abre a caixa nupcial da qual saem todas as mazelas. No fundo, Epimeteu e Prometeu refletem essa realidade do ser feliz e do estar feliz. O que nós buscamos, e essa é a minha utopia de Brasil, é a civilização sem o mal-estar. É o conforto, a segurança, a racionalidade de Prometeu, com a alegria de viver, a espontaneidade e o doce sentimento da existência de Epimeteu.

O risco dessa utopia é buscar o melhor dos dois mundos e terminar no pior: o mal-estar sem a civilização. Você não alcançou um padrão de civilização razoável, mas ao mesmo tempo já perdeu aquela alegria característica dos povos pré-modernos.

Então o caminho seria esse, o de buscar o ser e o estar feliz ao mesmo tempo? É encontrar maneiras de tensionar o ser e o estar feliz de uma forma nova. O que pode alimentar essa pretensão é o fato de que culturas pré-modernas permanecem de maneira muito viva e porosa na cultura brasileira. Isso nos dá um diferencial. A Argentina, se tudo der certo, é um país europeu medíocre. O Brasil e o México, na América Latina, têm alguma coisa diferente, têm um passado rico que pode ser metabolizado de uma maneira nova nesse processo de civilização e participação no mundo moderno.

(link da entrevista aqui)

18 de julho de 2011

compro livro pela capa, e daí?

Alguns de vocês que (ingenuamente acredito) me leem aqui devem saber que venho estudando o livro (sim, o livro!), num vai e vem que se constitui numa relação de amor e ódio, como não poderia deixar de ser – os dois polos fazem parte de tudo que é feito com intensidade.
                Fui à livraria cultura ontem e peguei a revista deste mês. Folheando antes mesmo de chegar em casa, tive uma surpresa: uma matéria falando do teor estético dos livros! O problema é que eu estava no elevador, lugar inevitavelmente constrangedor onde falar da chuva ou mexer no celular são as melhores opções sempre. Quando meu vizinho saiu, eu puder soltar meu grito de euforia: eles leram meu pensamento!
                A matéria trata de colecionares de livros, pessoas que compram várias edições do mesmo texto só pelo gosto de tê-los consigo, de apreciar as diferentes capas e edições, o maravilhamento estético causado por esse mais perfeito objeto do design, como já disse Umberto Eco.
                É, tenho certeza: o pessoal da revista leu meu pensamento.
                Fica, então, a dica de leitura da revista da Cultura deste mês de julho, que pode ser acessada clicando aqui.


imagem retirada da Revista da Cultura


15 de junho de 2011

história sem fim

Inevitavelmente me vem uma vontade louca de escrever. Depois da frase, paro para respirar fundo e volto a digitar novamente. E porque tanto tempo sem escrever?, fico me questionando ao digitar botões: - é a distancia tão grande da literatura. Pois é, nunca mais li nada fantasioso, tão profundamente envolvido que estou com a sociologia e meus estudos académicos não me permito o tempo de ler um romance qualquer.

Mas também o medo. Totalmente inconstante eu já sei que sou, e sabendo disso sei também que qualquer coisa que passe na minha frente me chama à atenção. Dessa forma, posso estar envolvido num estudo para a seleção de mestrado e de repente me perder num romance. Isso é tão perigoso que posso voltar a querer habitar madrugadas, escrever páginas e mais páginas de pura besteira e no final chorar arrependido no banheiro porque nada tem dado certo.

Todas essas ideias me ocorreram ao ler umas colunas da Carol Bensimon no blog da Companhia das Letras. Inspirações de quem ler livros, e que vem tem de tantos outros livros lidos, coisas que remetem a infância: estamos todos envolvidos nessa historia sem fim. Para quem assistiu ao filme, essa é a metáfora perfeita, não?




10 de maio de 2011

Artesanato Intelectual

Não sei como terminei meu curso de ciências sociais sem ter lido o “livrinho” de C. W. Millls, Sobre o Artesanato Intelectual e Outros Ensaios. Dos anos imensos a que me dediquei a escrever literatura, o me preparar eternamente para um inicio glorioso, que nunca chegou, de todo esse tempo parecia que nada tinha ficado. Ou pelo menos, nada disso eu aproveitava de fato no que tenho me dedicado agora: com anos de atrasado, só no fim do meu curso é que consigo agora me ver como sociólogo. E esse livrinho que estou lendo parece que faz a ligação final, o que precisava para encerrar (ou iniciar, o que é mais provável) a tal da angústia da criação.

Uma das coisas que tinha aprendido como escritor é tentar manter um diário, um caderninho (ainda tenho até hoje os Moleskines que consegui trazer da viagem) em que se anota tudo que sente, pensa, elabora e planeja. Para um escritor é fundamental traçar planos psicológicos de personagem, cenário etc. É uma espécie de treino fundamental para quando se vai escrever. Mas e como sociólogo? Nesse processo de descoberta me deparo com o que diz Whight Mills: “o arquivo o ajuda também a desenvolver o hábito de escrever”. Tao óbvio! Mas parece que os professores não sabem disso, ou não acham importante passar aos alunos. Pois até então as coisas me pareciam tão técnicas e objetivas (é o mal de carregarmos o nome de ciência) que a boa escrita parecia coisas de uns poucos sociólogos os quais eu admirava. E olha essa outra passagem do livro: “Uma das piores coisas que acontecem com cientistas sociais é que só sentem necessidade de escrever sobre seus “planos” numa única ocasião: quando vão pedir dinheiro para uma pesquisa específica ou “um projeto””.

Ainda não sei aonde essa aventura vai me levar. Mas essas palavras de Mills me lembram as de Autran Dourado acerca da Arte da Carpintaria. De qualquer forma, já é um bom começo.

28 de dezembro de 2010

Mais um pouquinho do de sempre

Estou aqui num horário totalmente não condizente com meu novo estilo de vida: disciplinado, metódico, que dorme e acorda cedo como um mero trabalhador. Mas o que faço às três da manha ainda acordado? Penso sobre a vida. E esse meu exercício antigo e constante é a fonte mais angustiante de prazer que encontrei até então. Pensar demais cansa, mas gera frutos generosos. Agora mesmo, conversando com uma amiga sobre a vida, sobre que o que foi, está sendo e poderá ser, terminei por ler uns poemas maravilhosos que sempre mexem comigo (porque você é assim, Quintana?) e não me aguento de vontade de digitar umas palavras. Umas besteiras mesmo, mas que me enche que energia.



E mais uma vez tenho de recorrer a quem já disse tudo:

Poema Transitório

Eu que na Era da fumaça: - trenzinho

Vagaroso com vagarosas paradas

Em cada estaçãozinha pobre

Para comprar

Pastéis

Pés-de-moleque

Sonhos

- principalmente sonhos!

porque as moças da cidade vinham

olhar o trem passar:

eles suspirando maravilhosas viagens

e a gente com um desejo súbito

de ficar ali morando sempre...

Nisto, o apito da locomotiva

e o trem se afastando

e o trem arquejando

é preciso partir

é preciso chegar

é preciso partir é preciso chegar...

Ah, como esta vida é urgente!

... no entanto

eu gostava era mesmo de partir...

e - até hoje – quando acaso embarco

para alguma parte

acomodo-me no meu lugar

fecho os olhos e sonho:

viajar, viajar

mas para parte nenhuma...

viajar indefinidamente...

como uma nave espacial perdida entre as estrelas.



Mario Quintana